15/06/2021

Obesidade X Cirurgia Bariátrica

Há algumas décadas, e ainda hoje em alguns povos, ostentar um corpo volumoso com excesso de peso, era sinônimo de opulência, força e saúde. Acontece que, juntamente com a obesidade, surgem o diabetes, a hipertensão, o câncer, o infarto, o derrame e inúmeros outros graves problemas de saúde, que reduzem a qualidade de vida e elevam as chances de mortalidade por diversas causas.

OBESIDADE

O Brasil tem cerca de 18 milhões de pessoas consideradas obesas. Somando o total de indivíduos acima do peso, o montante chega a 70 milhões, o dobro de há três décadas.

A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal no indivíduo. Para o diagnóstico em adultos, o parâmetro utilizado mais comumente é o índice de massa corporal (IMC).

O IMC é calculado dividindo-se o peso do paciente pela sua altura elevada ao quadrado. É o padrão utilizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que identifica o peso normal quando o resultado do cálculo do IMC está entre 18,5 e 24,9. Para ser considerado obeso, o IMC deve estar acima de 30. 

São muitas as causas da obesidade. O excesso de peso pode estar ligado ao patrimônio genético da pessoa, a maus hábitos alimentares ou, por exemplo, a disfunções endócrinas. Por isso, na hora de emagrecer, procure um especialista.

Os riscos inerentes ao excesso de gordura estão demonstrados em vários estudos populacionais, entre eles um publicado na revista Lancet Endocrinology, em junho de 2018, e que avaliou as causas de mortalidade de mais de 3,6 milhões de pessoas e sua associação com a obesidade. A pesquisa fortaleceu o conceito de que quanto mais pesado, maiores os riscos. Mostrou que para cada 5 pontos a mais no IMC acima do ideal, em torno de 25, o obeso apresenta chances 20% maiores de morrer. Homens com obesidade mórbida (IMC>40) têm uma expectativa de vida nove anos menor do que aqueles com peso normal. Isso sem contar o impacto na qualidade de vida, nas limitações de mobilidade, nos distúrbios do sono e outras restrições que enfrentam as pessoas com graus elevados de obesidade.

Infelizmente, o tratamento clínico (dieta, exercícios, medicação e acompanhamento de endocrinologista e nutricionista) de indivíduos muito obesos apresenta resultado ruim, com reganho do peso na maioria das vezes. A cirurgia é indicada para pacientes que tenham tido insucesso no tratamento clínico e medicamentoso de forma criteriosa, que tenham obesidade há mais de 5 anos e que possuam um IMC superior a 40 ou que apresentem IMC entre 35 e 40 mas que tenham doenças importantes associadas.

Quando as intervenções de estilo de vida e medicações não foram suficientes para ajudar ao retorno ao peso adequado, a cirurgia bariátrica pode ser considerada. A partir de então, o médico pedirá uma série de exames pré-operatórios, que mostrarão se a pessoa está apta a passar pelo procedimento.

CIRURGIA BARIÁTRICA

A cirurgia bariátrica vem evoluindo ao longo de décadas e transformou-se em uma ferramenta eficaz pelos seus expressivos resultados e pela sua efetiva segurança. Ao longo dos últimos 20 anos, as taxas de mortalidade da cirurgia despencaram para menos de dois casos para cada 1.000 operados. Muitos dos efeitos adversos são controlados ou minimizados com acompanhamento adequado e bons cuidados. A sensação de renascimento e resgate é tão marcante que muitos celebram a data de sua cirurgia como um novo aniversário.

 Técnicas Mais Utilizadas

Cabe ao médico apresentar e recomendar a técnica mais adequada para cada caso. As técnicas mais utilizadas são:

  • Gastrectomia Vertical (Sleeve): é uma técnica restritiva que promove uma remoção cirúrgica parcial do estômago (aproximadamente 70%), sem reconstrução intestinal, criando-se um estômago tubular com pequena capacidade (de 80 a 100 ml).
  • Bypass Gástrico ou Gastroplastia Redutora em Y de Roux: é uma técnica mista em que parte do estômago é grampeado (90% aproximadamente) e posteriormente é ligado a um desvio intestinal inicial. Desta forma se reduz o espaço para o alimento e com o desvio intestinal se promove um aumento na produção de hormônios que dão saciedade e diminuem a fome.
  • Videolaparoscopia: conhecida como cirurgia a laser ou cirurgia de furinhos, a cirurgia por videolaparoscopia é realizada com uma câmera de televisão e instrumentos que são colocados no abdômen através de pequenos cortes de 0,5 a 2 cm cada. Por ser menos invasiva causa menos dor no pós-operatório e uma rápida recuperação e retorno ao trabalho, sem contar ainda a vantagem estética, pois substitui a necessidade de uma longa incisão ou corte para abrir a cavidade abdominal (como é feita na cirurgia convencional ou aberta).
Mecanismos da Perda de Peso

Os procedimentos cirúrgicos bariátricos promovem a perda de peso através de dois mecanismos fundamentais:

  • Mecanismo de Restrição: procedimentos restritivos limitam a ingestão calórica, reduzindo a capacidade do reservatório gástrico.
  • Mecanismo de Disabsorção: os procedimentos disabsortivos diminuem a eficácia da absorção de nutrientes ao encurtar o comprimento do intestino delgado funcional, seja através do desvio das secreções biliopancreáticas que facilitam a absorção. No entanto, o benefício da perda de peso superior pode ser compensado por complicações metabólicas significativas, como a desnutrição de proteínas e várias deficiências de micronutrientes.

Alguns procedimentos cirúrgicos podem ter uma associação do componente restritivo com o disabsortivo. Existe também um reconhecimento crescente de que os procedimentos cirúrgicos bariátricos contribuem para efeitos neurohormonais na regulação do balanço energético.

Riscos e Benefícios da Cirurgia Bariátrica

Antes da cirurgia, todo paciente precisa ser avaliado individualmente, devendo ser submetido a uma avaliação clínico-laboratorial que inclui – além da aferição da pressão arterial – dosagens de glicemia, lipídeos e outras dosagens sanguíneas, avaliação das funções hepática, cardíaca e pulmonar. A endoscopia digestiva e a ecografia abdominal são importantes procedimentos pré-operatórios obrigatórios. Pacientes com doença psiquiátrica grave devem ser tratados antes da cirurgia.

Na maioria dos pacientes, a cirurgia bariátrica – além de levar a uma perda de peso grande – traz benefícios no tratamento de todas as outras doenças relacionadas à obesidade. É possível uma melhora importante ou mesmo remissão do diabetes, do controle da pressão arterial, dos lipídeos sanguíneos, dos níveis de ácido úrico e alívio das dores articulares.

Do ponto de vista nutricional, os pacientes submetidos à cirurgia bariátrica deverão ser acompanhados pelo resto da vida, com o objetivo de receberem orientações específicas para elaboração de uma dieta qualitativamente adequada. Quanto mais disabsortiva for a cirurgia, maior a chance de complicações nutricionais, como anemias por deficiência de ferro, de vitamina B12 e/ou ácido fólico, deficiência de vitamina D e cálcio e até mesmo desnutrição, nas cirurgias mais radicais. Reposições vitamínicas são feitas após a cirurgia e mantidas por tempo indeterminado. A diarreia pode ser uma complicação nas cirurgias mistas, principalmente na derivação bileopancreática.

A adesão ao tratamento deverá ser avaliada, pois alguns pacientes podem recorrer a preparações de alta densidade calórica e de baixa qualidade nutricional – que além de provocarem hipoglicemia e fenômenos vasomotores (sudorese, taquicardia, sensação de mal-estar) – colocam em risco o sucesso da intervenção em longo prazo, reduzindo a chance de o indivíduo perder peso.

A cirurgia antiobesidade é um procedimento complexo e apresenta risco de complicações. A intervenção impõe uma mudança fundamental nos hábitos alimentares dos indivíduos. Portanto, é primordial que o paciente conheça muito bem o procedimento cirúrgico e quais os riscos e benefícios da cirurgia. Desta forma, além das orientações técnicas, o acompanhamento médico, nutricional, psicológico e o apoio da família são aconselháveis em todas as fases do processo.

Em pacientes que apresentaram uma perda de peso muito grande, uma cirurgia plástica para retirada do excesso de pele é necessária. A mesma poderá ser feita quando a perda de peso estiver totalmente estabilizada, ou seja, depois de aproximadamente dois anos.

Mulheres que realizam cirurgia bariátrica devem aguardar pelo menos de 15 a 18 meses para engravidar. A grande perda de peso logo após a cirurgia pode prejudicar o crescimento do feto.

 Desinformação

Sem qualquer razoabilidade, sempre que alguma fatalidade acontece, voltam-se os olhares e as críticas para a cirurgia bariátrica. Pessoas sem formação médica, sem a capacidade de entender o balanço do risco-benefício, do fazer e do não fazer, demonstram preconceito.

Falam sobre a “banalização da cirurgia”, que é feita em menos de meio por cento das 13,6 milhões de pessoas que têm indicação no país. Mas, na verdade, o que banalizam é a doença, desconhecendo o sofrimento dos que convivem com ela.

Os médicos, ao fazerem recomendações, estabelecerem protocolos, e definirem um tratamento, se baseiam em evidências científicas, em dados. São profissionais treinados para isso. E não se omitem em reconhecer eventuais equívocos, em abandonar ou corrigir os rumos de suas condutas, todas as vezes que novas tecnologias ou evidências aparecem. Como disse Edward Demmings, o estatístico americano que revolucionou o conceito de qualidade em gestão, “sem dados você é apenas uma pessoa qualquer com uma opinião”.

Entretanto, se o cirurgião bariátrico, com seu bisturi e anos de estudo, é capaz de salvar e melhorar as vidas de tantas pessoas, textos sem amparo científico e estatístico podem gerar dúvidas, incertezas e medo em uma parcela da população que poderia ter, com o uso da boa medicina, uma melhora na sua qualidade de vida e muito mais tempo para viver.

É necessário, portanto, comedimento, equilíbrio e conhecimento para formadores de opinião leigos abordarem questões de saúde. Deixemos a ciência para os cientistas.

Fontes: 

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